"Carmina Burana: a poesia dos goliardos"

"Quando é a grana que impera

o direito degenera,

ao indigente é negado

o direito comprovado;

para o rico não falta juiz

a vender-se por pratas vis;

para o rico, o juiz bonzinho

sempre dá algum jeitinho;

quando é a grana que pleiteia,

a sentença nunca é feia.

 

Quando a grana é quem manda,

a justiça enfraquece,

toda causa que desanda

vitoriosa aparece,

o pobre perde seu direito

quando a grana faz o pleito;

seu processo já naufragou

se ao juiz nada pagou;

a justa causa se declina

só por falta de propina."

 

O leitor deve estar imaginando que os versos acima se referem ao contexto sócio-econômico-político brasileiro da atualidade ( que  parece ser o mesmo desde que Cabral aqui chegou), por causa do conteúdo do texto, pela presença das palavras GRANA  ( ao invés de dinheiro) - gíria utilizadíssima entre os falantes que vivem numa sociedade capitalista, onde quem exerce o poder político e social é a classe que detém o poder econômico - e JEITINHO, palavra símbolo do povo brasileiro, pois brasileiro tem sido o adjetivo que  acompanha, ou melhor, que segue o substantivo "jeitinho" ( "JEITINHO BRASILEIRO"), binômio que, infelizmente, tornou-se traço da cultura do país e é conhecido dentro e fora dos seus limites geográficos.

 O leitor se enganou: esse texto é um poema do século XIII  e faz parte de um conjunto de poemas medievais - de um CANCIONEIRO - de autoria dos GOLIARDOS e que por seis séculos ficou escondido, trancado a  "sete chaves" (como todas as obras consideradas subversivas e, por isso, proibidas) na biblioteca da  Abadia de Benediktbeuern, na Baviera, Alemanha. Em 1803, quando o acervo artístico e literário da Abadia foi transferido para a Biblioteca Estatal da Baviera (Bayerische Staatsbibliothek, fundada em 1558 e considerada a maior e mais rica em manuscritos medievais da Alemanha Ocidental) em Munique, nele foi encontrada uma extensa coleção de poemas/canções profanas e em latim; seu manuscrito foi publicado em 1847 e intitulado "Carmina Burana", ou seja, em latim, "Canções de Beuern" por ter sido encontrado na Abadia de BenediktBEUERN. Esse manuscrito continua na Biblioteca Estatal em Munique: é o manuscrito no. 4660. A obra, porém, tornou-se mais  conhecida a partir de 1936, quando o compositor alemão Carl Orff  (1895-1984) musicou 23 (vinte e três) canções de "Carmina Burana" , que tem sido inserida em corais, nas trilhas sonoras de filmes e programas de televisão, em "shows", etc. O sucesso da cantata despertou o interesse pela letra, ou seja, pelo texto da obra literária que Orff encontrou na Biblioteca em Munique: qual seria sua história, quem seriam seus autores, por que foram proibidas e escondidas, etc? Esse interesse, no entanto, tem se restringido a um número muito pequeno de intelectuais, principalmente no Brasil.

      Para se ter uma idéia, somente em julho do ano passado (1994) foi lançada uma obra que traduz para o português moderno 9 canções de "Carmina Burana" de autoria daquele que é considerado por Sigismundo Spina (que apresenta a obra) o maior especialista no assunto em nosso país: Maurice van Woensel. A obra, publicada pela Editora Ars Poética, tem título homônimo , é bilíngüe (latim-português) e não se atém à mera tradução dos poemas: os textos de apresentação e introdução, os comentários e notas explicativas sobre cada poema, os anexos, despertam a curiosidade sobre o assunto no leitor. Essa curiosidade despertada é que nos levou a pesquisar a respeito de "Carmina Burana" e de seus autores: os goliardos ; pronta a pesquisa, surgiu o desejo de divulgá-la a outras pessoas. Além desse desejo, o fato de muitos  (ainda) desconhecerem o assunto mesmo sendo estudiosos e/ou apreciadores de Literatura, e, principalmente, a atualidade de "Carmina Burana", em especial no que toca à corrupção nas  esferas de poder, levou-nos a escrever este artigo.

 

1. A Igreja Medieval: algumas considerações

  Na Idade Média, a religião oficial da Europa é o Cristianismo  e a instituição "porta-voz" de seus preceitos e "canal" entre Deus e os homens é a Igreja Católica. Tais funções dão ao CLERO plenos poderes sobre toda a sociedade: ela é, juntamente com a aristocracia laica, a classe dominante na sociedade feudal.

  O que justifica e o que sustenta tal domínio ? Principalmente te numa ideologia calcada no princípio de que Deus é o centro da vida humana (TEOCENTRISMO), é "a medida de todas as coisas" e, por isso, todos os homens devem ter como objetivo primeiro de sua existência SERVIR e AGRADAR a Deus: essa atitude de servidão ("feudalismo religioso" ) dá ao servo como recompensa um lugar  privilegiado "no céu"  após sua morte:

     "Firma-se aos poucos uma mentalidade simbólica que via no mundo um grande enigma decifrável somente pela fé. Um mundo que ganharia sentido apenas através de Deus. A razão passava a ser vista como um instrumento diabólico, que mantinha o homem na ilusão de uma falsa sabedoria que o afastava da verdade. Havia a possibilidade do homem se aproximar de Deus, servindo-o . Firmava-se, assim, uma nova aliança, pela qual o homem através de determinadas ações ganharia as recompensas celestiais. Em função disso e do crescente clericalismo, foi se desenvolvendo um ritualismo que levou a época a ser chamada de "civilização da liturgia".

      Com o Cristianismo, o homem viu-se diante de um Deus distante e onipotente e de um Demônio sempre presente e tentador. Colocado entre as forças do Bem e do Mal, no centro de um combate a que não poderia fugir, o homem jogava seu destino... Combater a presença do Demônio era uma necessidade para que o homem definisse o destino de sua Vida Eterna." (1) (grifo nosso)

           Agradar e servir a Deus, segundo a Igreja, significam, dentre outras coisas, ser extremamente religioso, isento de pecado, desapegado aos bens materiais - que ao serem doados , por exemplo, à Igreja convertem-se imediatamente em crédito, em garantia de obtenção das "recompensas celestiais" há pouco citadas - , obediente e temente (até rimam) a Deus, etc. O conceito de pecado, aliás, parece estar sempre ligado aos conceitos de prazer, de progresso, de criatividade, de beleza, de tudo, enfim, que traz satisfação ao homem e que, coincidentemente, caracterizaram a cultura da Antigüidade: uma cultura antropocêntrica. O medo de pecar e, portanto, de desagradar a Deus, torna o homem medieval passivo, impotente e, por isso, dominado pelo que a Igreja determina como norma de conduta pessoal e social: o feudalismo religioso, assim, endossa e reproduz as relações vassalagem/servidão, essência do sistema feudal.

         "O controle da Igreja sobre os valores culturais e mentais era exercido através de vários canais. O sistema de ensino, monopolizado pela Igreja até o século XIII , permitia a reprodução do corpo de idéias  que ia sendo selecionado e formulado por ela. Assim, foi primeiro nos mosteiros, depois nas universidades, que a herança cultural greco-romana foi devidamente cortada, emendada, desenvolvida, enfim, cristianizada. Numa época em que poucas pessoas tinham acesso a essa cultura escrita, as pinturas e esculturas das igrejas e os sermões dominicais dos clérigos funcionavam como meios de comunicação de massa da época, transmitindo naturalmente a visão de mundo da Igreja.( grifo nosso).

          A prática da confissão individual, cada vez mais adotada a partir do século VIII  , permitia ao clero penetrar profundamente na consciência de seus paroquianos e assim orientar seu pensamento e comportamento" (2)

      A Idade Média é um período de longas e constantes guerras: o mundo terrestre é "palco da luta entre as forças do Bem e do Mal, hordas de anjos e demônios". As forças do Mal concretizadas naqueles que não são cristãos - como os muçulmanos, os vikings,

etc - são combatidas com soldados e armas; aquelas que "não se encarnaram", no entanto, exigem, segundo a Igreja, um tipo especial de soldado: os clérigos, com suas armaduras simbólicas ( batinas) e suas armas espirituais (sacramentos, preces, exorcismos) , guerreiros que "comandam" a vitória dos homens sobre o Mal.

 A esse poder de determinar o pensamento e as ações de toda a sociedade, acrescenta-se ao clero medieval um outro tipo: o PODER ECONÔMICO. A partir do ano 321 , a Igreja passou a receber legados e a quantidade de seus bens cresceu rapidamente,

tanto que já no século V ela é a maior proprietária de terras depois do Estado; no século X, terça parte das terras cultiváveis de toda Europa Católica era da Igreja, sem contar outros tipos de riquezas. Poder gera poder e a Igreja é a classe mais poderosa econômica-política e socialmente falando:

              "A clericalização da sociedade atingiu seu auge nos séculos X-XIII  . Pouca coisa escapava à Igreja, por isso é mais adequado caracterizar a sociedade medieval como feudo-clerical ou feudoclericalismo" (3)

 

2. A crise clerical e o surgimento dos goliardos:

           Tanto poder sobre os homens parece ter levado o clero a se esquecer das coisas de Deus; tantos bens materiais desviam a atenção dos religiosos daquela que seria sua missão e os assuntos ligados ao espírito são relegados a segundo plano ou, o que é pior, misturam-se aos mundanos. A crise clerical começa a tomar corpo  mais ou menos no século XII quando fica clara a contradição entre a "instituição que não é deste mundo" -  e por isso recebe respeito, obediência  e bens - mas que age cada vez  mais nele, que prega a filosofia cristã, mas que está longe de praticá-la, que impõe aos seus fiéis que "é mais fácil um animal de grande porte passar pelo buraco de uma agulha do que um rico

entrar no reino dos céus", mas que enriquece a cada dia; "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus", mas que exerce o poder divino e político simultaneamente; "não matarás", mas que tem uma Santa Inquisição...

         É preciso, no entanto,  esclarecer que dentro da própria Igreja Medieval existem dois cleros: o REGULAR  e o  SECULAR.

           O clero regular é formado pelos monges, religiosos que vivem no interior dos mosteiros, que obedecem à rígidas normas disciplinares, que prestam voto de pobreza e de humildade, que trabalham duro e que expendem muitas horas em silenciosa meditação religiosa. São também os monges quem escrevem a maior parte dos livros, copiam manuscritos antigos e mantêm a maioria das escolas, bibliotecas e hospitais que existem na Idade Média.

           O clero secular é aquele do qual está se tratando até aqui: o formado por religiosos que desempenham suas atividades em  meio às coisas do mundo, ou seja,  pelos sacerdotes, bispos e arcebispos.

           Com o tempo, desenvolve-se entre o clero regular e o secular uma intensa rivalidade, tendo os monges por vezes organizado movimentos de reforma contra o mundanismo do clero secular.

      Não são só os monges, porém, que percebem que o "pecado" está cada vez mais no cotidiano de grande número de membros do clero. Muitos leigos, principalmente intelectuais que conhecem um conjunto de idéias que divergem do pensamento  ( da "visão de mundo") propagado pela Igreja, enxergam claramente tantos paradoxos entre o que ela prega e o que ela faz, questionam seus preceitos, etc. Além disso, a guerra, a fome, a peste, a morte em tão grande escala na Idade Média são considerados castigos divinos aos pecados humanos , como resultado do afastamento dos homens em relação a Deus. A Igreja começa a ser considerada a grande culpada pelas calamidades, pois, para muitas pessoas, seu envolvimento excessivo nas questões materiais causa problemas no intercâmbio Deus-homens da qual ela é mediadora. Ironicamente, " o feitiço está se voltando contra o feiticeiro..."

          É nesse exato momento que clérigos descontentes e, por isso, marginalizados ( fugidos ou expulsos dos mosteiros), intelectuais e estudantes  começam a formar um interessante grupo, que resolve popularizar tudo o que consideram irregular nas esferas de poder, delatando os crimes, as injustiças, a corrupção, etc, escolhendo como meio de comunicação a Literatura e a Música. Esse grupo é o dos GOLIARDOS.

 

3. Os goliardos:

     Século XII: renascem as cidades e o comércio  é uma atividade econômica de suma importância na Europa. Juntamente com as especiarias, com a seda de Bizâncio, de Bagdá ou de Córdova, os mercadores (muçulmanos) levam consigo manuscritos, através dos quais a cultura greco-árabe penetra na Europa. Um trabalho extenso de tradução pôs os cristãos em contato com as obras-primas dos filósofos antigos (Platão e Aristóteles), dos muçulmanos (destaque para  o muçulmano  Averroes, autor da mais clara exposição do aristotelismo dessa época) e dos judeus (destaque para Maimônides, astrônomo e teólogo) (4).

      Como foi citado no item anterior, até o século XIII o sistema de ensino é monopolizado pela Igreja e a cultura antiga, cristianizada. Já no século XII, porém, a assimilação de textos gregos e árabes pela cristandade ocidental começa a ocorrer em alguns centros, especialmente franceses: Paris, favorecida pelo prestígio crescente da monarquia dos Capetos, é o mais brilhantes desses focos; mestres e discípulos aglomeram-se na antiga "Cité", na Escola da Catedral de Notre Dame; alguns mestres ainda ensinam conforme os cânones da Igreja; outros, no entanto, atraem numerosos estudantes quando lhes apresentam um conjunto de idéias em que a razão triunfa sobre a fé: um desses mestres, considerado o mais ilustre de seu tempo e o fundador do "racionalismo medieval" é Pedro Abelardo (mais conhecido simplesmente como Abelardo), sobre o qual o presente artigo ainda vai comentar. A Igreja sempre teve suas "razões" (fazendo um trocadilho) por temer que suas  "ovelhas" tivessem acesso ao pensamento dos Antigos, pois há nele um racionalismo que levanta suspeitas sobre o pensamento dogmático da Igreja, e o que até então é indiscutível passa a ser polêmico, problemático. Além disso, percebe-se que, aos poucos, o ser humano sente o desejo de produzir saberes, de progredir, de cuidar dos problemas humanos tão descuidados numa cultura teocêntrica como a medieval; o ser humano deseja ser novamente o centro, a meta de sua própria vida (antropocentrismo). Em Chartres, dominam a Aritmética, a Geometria, a Astronomia e a Música, que alimentam o espírito curioso e pesquisador dos habitantes da cidade. Por tudo isso, muitas escolas e universidades medievais são consideradas focos de heresias, paganismo e mundanismo. A Igreja diz que “o jovem procura a Teologia em Paris, o Direito em Bolonha e a Medicina em Montpellier, mas em nenhum lugar uma vida que agrade a Deus. "(5)

       Esse grupo de mestres e estudantes "hereges, pagãos e mundanos " por freqüentarem tais "antros" e por serem simpatizantes de uma ideologia diferente daquela inculcada pela classe dominante recebe a adesão de clérigos há muito descontentes com os "paradoxos" do clero secular. Tais mestres, estudantes e clérigos são chamados de GOLIARDOS.

        A palavra goliardo vem do latim "goliardus": vagante. Isso porque esse estranho grupo é itinerante, ou seja, aproveitam o freqüente intercâmbio entre universidades como as de Paris, Oxford, Cambridge, Colônia, Bolonha e Pádua, para mudarem de lugar e ouvirem novos professores e/ou para também divulgarem suas idéias, seus conhecimentos, etc, propiciando sempre o debate, a polêmica em torno daquilo que até então é considerado verdade absoluta; o uso da língua latina em todos os centros culturais facilita esse intercâmbio. Muitos desses "vagantes" tornam-se famosos ( Abelardo, por exemplo).

      Com o tempo, porém, a anarquia e a boêmia passam também a caracterizar tal grupo, de maneira que os goliardos tornam-se um grupo formado por mestres, estudantes, clérigos fugitivos, mendigos, jogadores, ladrões, enfim, por todos os tipos de marginalizados da sociedade, de criminosos comuns, dos quais estavam cheias as estradas. Os goliardos participam de todo o tipo de arruaça, por isso costumam referir-se a si mesmos como discípulos de Golias (provavelmente o gigante derrotado por Davi,

do latim "Golias"e do hebraico "Golyat", "inimigo de Deus"), outra  acepção do nome goliardo. Segundo C.H. Haskins, em sua obra "The Renaissance of the Twelfth Century", esse Golias pode ser o diabo e " a escolha de tal mestre é bastante apropriada, pois a maioria

dos goliardos é considerada pela Igreja como dissolutos da mais baixa estofa, para os quais nada era suficientemente sagrado para escapar ao ridículo"(6), tanto que o "Concílio de Colônia", em 1300, proíbe aos  goliardos fazerem sermões nas igrejas.

      A palavra goliardo tem ainda outra provável origem ; a do latim "gula", pela comida e bebida  consumida em excesso pelos goliardos.

      Esses gulosos, boêmios, marginalizados, vagantes e anárquicos  escolhem como veículo de sua mensagem revolucionária e aberta a todas as formas de oposição ao feudalismo a obra literária em versos, a POESIA.         

 

4. A poesia dos goliardos

      Os goliardos são poetas itinerantes, mas cultos, letrados: conhecem a obra de Virgílio, Catão, Horácio e principalmente a "Arte de Amar", de Ovídio; são poetas que têm contato com o povo, com a população simples e rústica do campo, mas que freqüentam universidades e palácios. Por isso, elaboram obras que lembram a  poesia dos jograis (poetas plebeus) ao mesmo tempo em que - por ser elaborada em latim ,ou seja, em linguagem culta, e pelo estilo (poesia litúrgica) - fazem contato com a poesia aristocrática dos trovadores (poetas nobres). Comungam em suas obras, assim, elementos da poesia popular e os da poesia culta, acompanhadas de uma melodia que muito lembra os hinos e cantos sacros (como, por exemplo o canto gregoriano, aliás tão em moda, tão apreciado atualmente), mas cuja "letra" tem conteúdo profano, pagão, "herege" no sentido em que veiculam o pensamento clássico, antropocêntrico; o fato de  terem acompanhamento musical também é  outro ponto de contato com as poesias trovadorescas e jogralescas: daí a poesia dos goliardos ser chamada de CANÇÃO e o conjunto delas, de CANCIONEIRO.

     Quanto à temática dessa produção poética, Sigismundo Spina(7)  lembra que ela costuma se condensar no trinômio AMOR-VINHO-JOGO, pois, para os goliardos, os prazeres da vida são os prazeres da bebida, do jogo e, em especial, do AMOR. Esse trinômio é desenvolvido em POEMAS LÍRICOS: bucólicos, amorosos, mas principalmente nos SATÍRICOS.

          A vida errante do goliardo lhe dá a experiência da vida em contato com a natureza; daí seus poemas celebrarem as belezas da estação florida, das mudanças das estações, dos pássaros, das florestas, etc.

      O amor - à moda de Ovídio - é o elemento principal de uma poesia erótica em que são freqüentes conceitos e motivos que já fazem parte das cantigas dos trovadores: os amores secretos, a submissão do homem em relação à amada - sua "senhora" (a vassalagem amorosa), idealizada , divinizada e, por isso, inatingível, etc, mas que salientam a volúpia  do amor físico e do vinho, exaltando a alegria das tavernas e dos bordéis.

      Há, ainda, poemas que criticam com veemência os costumes, o sistema, etc; qualquer que seja o tema, contudo, uma coisa é certa: o alvo predileto de um poema goliardo é, sem dúvida, o clero secular:

     "Os "clericis vagantes"cantam a volúpia dos prazeres terrestres, libertando-os do estigma do pecado, parodiando os evangelhos, as orações, os ofícios, e criticando a venalidade, e imoralidade e a hipocrisia do clero. Um florilégio da poesia erótica latina, de inspiração ovidiana, coloca-se sob o signo da lasciva Afrodite."(8)

     Os poetas goliardos escrevem paródias do credo, paródias das missas e mesmo imitações burlescas dos evangelhos; nas suas canções tabernárias, colocam em relevo os desmandos da Igreja, a hipocrisia dos altos prelados eclesiásticos, os paradoxos entre o que a Igreja prega e o que ela faz (como já vimos anteriormente), etc, numa tentativa de reforma na disciplina religiosa, prenunciando idéias que posteriormente (século XVI) fariam parte do Luteranismo e do Calvinismo. Nas obras em que exaltam os prazeres do amor, de uma boa mesa (com muita comida e bebida), do jogo, ou, nas invocações da mocidade, da primavera e da natureza, é evidente a tendência contra o espírito ascético da Igreja. Caso o leitor não saiba, o " ASCETISMO  é a moral filosófica ou religiosa baseada no desprezo do corpo e das sensações corporais, e que tende a assegurar, pelos sofrimentos físicos, o triunfo do espírito sobre os instintos e as paixões" . O pensamento goliardo parece discordar completamente disso:

    

            "É Padre, discreto entre os discretos,

              Dá-me absolvição!

              grata a morte que me leva,

              É doce extinguir-me,

              Pois meu coração sofre

              Da meiga doença que a beleza traz;

              Todas as mulheres que não alcancei

              Possuo em minha ilusão.

 

              É tão difícil conseguir

              Que a natureza se renda

              E, junto às belas, corar e fingir

              Que se é campeão da inocência!

              Nós, os moços, não submeteremos jamais

              Nossos desejos à lei severa,

              Nem afastaremos do pensamento

             Esses corpos macios e ternos.”     ( "CONFISSÕES DE GOLIAS)

 

    As "virulentas críticas à Igreja e a contradição à moral e às leis canônicas, às vezes, dão lugar a temas de preferência dos ouvintes : para sobreviverem, os goliardos elaboram de improviso obras do e para o gosto dos ouvintes que se dispõem a pagar sua comida, bebida e pousada. O mais curioso é que a maioria dos ouvintes dos vagantes, por serem os únicos a entenderem latim, são também clérigos...

 

5. Goliardos famosos     

      A poesia dos goliardos são anônimas. Nada se sabe a respeito dos autores com certeza. No entanto, o "magister" Hugo de Orléans (1093-1160) parece realmente ser o autor de um grupo de poesias goliárdicas. Também são atribuídas cerca de 30 canções jocosas ao bispo Gualterius de Châtillon (1135- 1180).

      É na Alemanha que a poesia dos vagantes alcança seu ponto mais alto: por volta de 1160, vive em Colônia um goliardo que se "esconde" sob o pseudônimo de "Archipoeta"( Arquipoeta) e que se acredita ser o secretário e protegido do arcebispo Raimundo. Ao Arquipoeta são atribuídas algumas das melhores canções goliárdicas, como por exemplo "Meu destino será morrer na taverna".

      Abelardo, já citado como o professor mais brilhante de seu tempo e o introdutor do Racionalismo medieval, desde cedo se mostra apaixonado pela Filosofia e um goliardo inveterado: estudante de Lógica em Loches e Paris, entra logo em conflito com o tradicionalismo de seus mestres; como professor de dialética - popular entre os alunos e por isso odiado pelos demais mestres - é constantemente perseguido pelos seus métodos de ensino, pois segundo ele, "só da dúvida surge o conhecimento; tudo deve ser questionado e analisado à luz da razão"; ainda jovem, a ele são atribuídas canções amorosas (aquelas à moda de Ovídio) que lhe valem tantas outras perseguições. Enquanto professor em Notre-Dame, conhece a bela e culta Heloísa, sobrinha do cônego Fulbert, mantendo com ela um relacionamento amoroso que resulta no casamento realizado às escondidas ( na época, os professores também faziam votos de castidade), no nascimento do filho do casal e na castração do "suposto sedutor"; considerando tais acontecimentos como um provável castigo divino, Abelardo e Heloísa se retiram para a vida monástica, mas durante o resto de suas vidas, amam-se "platonicamente" e se correspondem através de cartas, que hoje podem ser conhecidas através da obra cujo título em português é "Cartas Completas de Abelardo e Heloísa", que,  segundo Antônio José Saraiva e Oscar Lopes, faz parte da "epistolografia amorosa espiritualizada entre clérigos e freiras goliardos"(9).Além dessa obra, a trágica e ao mesmo tempo bela história de amor de Abelardo e Heloísa pode ser conhecida através da obra "Em Nome de Deus", de Marion Meade,cuja versão cinematográfica  é encontrada também em vídeo. Sem abandonar a filosofia, Abelardo passa a se dedicar à Teologia, publicando a "Teologia do Bem Supremo", condenada pelo Concílio de Soissons. Como abade de Saint-Gildas, combate a corrupção e é quase assassinado por monges corruptos. Para encerrar, em 1136, suas doutrinas são condenadas pelo papa e pelo Concílio de Sens; morre em 1142 sob tal condenação. É possível duvidar que Abelardo seja um goliardo?

      O último e maior dos poetas goliardos é francês e vive no século XV: François Villon(1431-1464), cujo nome verdadeiro é François de Montcorbier; adota o sobrenome Villon em homenagem ao seu benfeitor, o cônego Guillaume de Villon. Estuda na Universidade de Paris e forma-se mestre; em 1455, porém, num tumulto de rua, mata um padre e é banido de Paris; depois disso, cai na total marginalidade, roubando, mendigando e acumulando crimes e penalidades, na mesma proporção de sua  crescente fama de poeta extraordinário. Villon é autor de duas obras: "O Pequeno Testamento" e  "O Grande Testamento", meio melancólicas, meio burlescas, em que lega aos seus inimigos os bens que não possui. Muitos dos seus poemas não são de fácil compreensão pela quantidade de gírias dos malfeitores parisienses que, não raro, misturam-se ao francês arcaico.

      O melhor das poesias dos goliardos, a maioria anônima ( como já citado), está no manuscrito datado de 1230 e encontrado apenas em 1803 na Biblioteca do Mosteiro de Benediktbeuern, sobre o qual já se teceu algumas considerações no início deste artigo: "Carmina Burana" ( "Canções de Beuern")

 

6. "CARMINA BURANA"

       Dentre os cancioneiros goliárdicos - em que se destacam os "Carminas" de Cambridge, de Arundel, de Liège, do Vaticano e de Ripoll - "Carmina Burana" é considerado o mais extenso, representativo e diversificado, pois esse conjunto contém todas as características da poesia goliárdica, além de trazer em si um  retrato fiel, crítico da época em que foram elaboradas, ou seja, exemplifica tudo o que foi  exposto  até aqui.

      A maior parte dessas canções é em latim, mas há várias em alemão antigo, os nas duas línguas; a mistura de duas línguas, especialmente a do latim com uma língua viva, feita com o objetivo de criar uma poesia de efeitos humorísticas ou satíricos, nos quais se manifesta, em geral, o conflito de classes numa sociedade, faz com que, em Literatura, essa poesia seja classificada como POESIA MACARRÔNICA. "Carmina Burana" é considerado o mais antigo exemplo de poesia macarrônica de que se tem notícia.  

        Sobre o manuscrito do cancioneiro, informa Maurice Van Woensel :

      "O manuscrito de "Carmina Burana" consiste em 112 folhas de pergaminho fino, de 17 por 25 cm, que foram copiadas por volta de 1230 na atual Bavária; a encadernação foi confeccionada muito tempo depois. Trata-se de uma compilação de canções, provavelmente por três copistas diferentes, e ilustrada com oito miniaturas e com vinhetas. Certas canções vêm com uma anotação musical rudimentar. Estudiosos conseguiram reconstituir o que foram as melodias originais delas..." (10)

      A seguir, alguns exemplos dessas canções , que foram "ressuscitadas", divulgadas e popularizadas quando o  alemão Carl Orff  compôs a cantata cênica  com o mesmo nome do manuscrito que têm encantado tantos leitores/ouvintes, principalmente pela sua "atualidade".  Os poemas (canções) serão transcritos em português moderno, seguindo a tradução  que Maurice von Woensel apresentou em sua magnífica obra. No final de cada texto, está colocado o número da canção dentro do cancioneiro ( CB nº ..., onde CB= Carmina Burana ).

 

 I- "Ó FORTUNA"

Ó Fortuna,

tal a lua,

uma forma variável!

Sempre enchendo

ou encolhendo:

ó que vida execrável!

Pouco duras,

quando curas

de nossa mente as mazelas

a pobreza,

a riqueza, tu derretes ou congelas.

 

Bruta sorte,

és de morte:        

tua roda é volúvel,         

benfazeja,    

malfazeja,

toda sorte é dissolúvel.

Disfarçada

de boa fada,

minha ruína sempre queres;

simulando

estar brincando,

minhas costas nuas feres.

 

Gozar saúde,

mostrar virtude:

isto escapa minha sina;

opulento

ou pulguento

o azar me arruína.

Chegou a hora,

convém agora,

o alaúde dedilhar;

a pouca sorte

do homem forte

devemos todos lamentar." (CB no. 17)

      Sem dúvida, "ó Fortuna" é a carmina burana mais conhecida, a mais popular,  principalmente depois que se tornou uma cantata de Orff: o vocativo inicial indica que  se trata de um lamento ante a pouca estabilidade de Fortuna, a deusa da sorte ( "Chegou a hora,/convém agora,/o alaúde dedilhar;/ a pouca sorte/do homem forte/ devemos todos lamentar."). A personificação feminina da fortuna, ou seja, da sorte humana não é gratuita: tal como uma mulher, ela é volúvel, instável, temperamental, que contém em si elementos ora positivos, ora negativos. Recorre-se, por isso, à antiga alegoria da roda da Fortuna para simbolizar o perpétuo "sobe e desce" da sorte humana.

      Um dos elementos mais interessantes do poema é a maneira como o seu autor concretizou a RODA DA FORTUNA  (seu caráter volúvel, sua instabilidade) : através de antíteses  que, colocadas em posições verticais, "giram"("rodam") no texto, já que em alguns momentos, o elemento de cima representa algo bom/ o de baixo, ruim, e em outros, o elemento de cima representa algo ruim/o de baixo, bom. Por exemplo:

    enchendo               pobreza                 vida

        x                              x                          x

 encolhendo             riqueza                  morte

    

          derretes   x   congelas

 

     benfazeja                sorte                 opulento

           x                          x                           x

     malfazeja               azar                  pulguento

 

     Tal concretização da roda da fortuna demonstra o indiscutível valor literário (poético) dos poemas goliardos, além da preocupação com o conteúdo crítico. 

 

II- "UMA JOVEM PASTORA"

Uma jovem pastora,

logo ao sol nascer,

levava seu rebanho

e lã para tecer.

 

Seu rebanho inclui

carneiro e jumentinha

cabrito e cabrita

bezerro e bezerrinha.

 

Ela viu na relva,

sentado um estudante:

"Senhor, que faz aqui ?

Brinquemos um instante!" (CB no. 90)

      "Uma jovem pastora", cujo nome já sugere se tratar de uma  "pastorela" é um poema goliardo que conta um  episódio de uma pastora que logo cedo leva o rebanho  para pastar. Chegando no pasto ( na relva), a pastora encontra um estudante (que pode ser um goliardo) . Como seu rebanho é formado por "jovens  casais "( cabrito-cabrita,bezerro-bezerra), o poema indica que a pastora  e o estudante formam outro "casal", pois ela o convida a "brincar"( sentido malicioso de "fazer amor"), como fazem os outros "casais" que ali se encontram. Fazer amor aparece como algo tão natural quanto o sol que nasce, a relva, a lã, o rebanho... E esta pastorela aparentemente despretensiosa  toca num assunto muito comum entre os goliardos : a invocação  da mocidade, da primavera e da natureza contra o espírito ascético da Igreja.

 

III- "AI DE MIM, QUE MEDO"

Ai de mim, que medo,

furaram meu segredo:

amava loucamente.

 

Revela o ocorrido

meu ventre entumescido;

o parto é iminente.

 

Mamãe me fustiga,

papai me castiga,

só fazem me xingar.

 

Fico em casa trancada,

não piso na calçada,

não posso mais brincar.

 

Se eu na rua andar,

todos vão me olhar:

"Um monstro a passar!"

 

Vêem com mesquinhez

minha gravidez

e passam sem falar.

 

Cotovelos se afrontam,

dedos sujos me apontam

como malfeitora.

 

Olhares me incriminam,  

 à fogueira me destinam,

a grande pecadora.         

É o fim da picada:

ser a moça mais falada

desta freguesia!

 

Dores sem fim padeço,

aflita, desfaleço,

choro de agonia.

E tudo agravou-se,

meu noivo exilou-se,

para longe daqui.

Ante a paterna vingança,

exilou-se na França

tão distante de mim.

Ele estando ausente

receio que não agüente

esta dor sem fim. " (CB  no. 126)

      "Ai de mim, que medo" , tal como numa primitiva "cantiga de amigo", é um poema goliardo em que o eu-lírico é feminino e que, e embora de autoria de um homem, expressa o descontentamento de uma mulher: uma jovem quase menina ("não posso mais brincar") encontra- se com medo por terem descoberto (ou, na gíria, "furado") seu segredo: uma gravidez conseqüência do ato de amor. A gravidez e outras conseqüências desse ato de amor são todas da mulher; embora tenha sido feita pelo casal, a criança é de responsabilidade exclusiva da mãe desde o ventre (é no corpo da  mãe que ela habita desde a sua concepção); o amante a abandonou e é  ela quem é penalizada pelo "pecado" cometido por ambos: no próprio corpo, pois ela é castigada pela barriga saliente ( "ventre entumescido") que a assemelha a "um monstro"; em casa, pelos pais; fora de casa, de quase onde não sai, pois todos a olham e dela falam com "mesquinhez e incriminação" ( conforme as estrofes de 4a. à 10a.), pois seu pecado seria digno da fogueira, o que faz referência à Inquisição. Em suma, essa gravidez lhe traz dores no corpo e na alma e ,em seu lamento expresso no poema, essa mulher-menina mostra a covardia do amante que a abandonou (conforme as três últimas estrofes) e a hipocrisia da sociedade ( o que ela acha "o fim da picada"= o mais dolorido) que condena só a ela por ter engravidado ("crescido e se multiplicado") fora do casamento.  

 

IV-" SE UM RAPAZ E UMA DONZELA"

Se um rapaz e uma donzela,

ficassem juntos na mesma cela...

R. Ó casal abençoado!

   O amor tempera,

   anima o noivado;

   o tédio se oblitera.

 

Brincam juntos num só gesto

de bocas, pernas e o resto!

R. Ó casal abençoado... (CB no. 183)

      "Se um rapaz e uma donzela" parece endossar o relacionamento sexual  ("brincam juntos num só gesto/ de bocas, pernas e o resto")  entre os jovens antes do casamento ("o amor tempera / anima o noivado") . A ousadia maior, no entanto, está na sugestão de que tais jovens são religiosos ("cela"= quarto de mosteiro) e na caracterização do casal como "abençoado", o que, na verdade, eles jamais seriam (só pode ser uma ironia, portanto: outra crítica ao ascetismo)

 

V- "AH, SE EU PUDESSE COMPRAR"

Ah, se eu pudesse comprar

o mundo, do Reno até o mar.

Tudo isto me pode faltar:

basta a rainha da Inglaterra

em meus braços se deitar." (CB no. 145)

      Esta  outra sátira goliárdica tem como objeto a rainha da Inglaterra, Leonor de Aquitânia,protetora das Letras e das Artes, mãe do famoso rei Ricardo Coração de Leão. Os poetas (trovadores) "protegidos"pela rainha Leonor  têm acesso à vida palaciana e, além de divulgarem suas obras e se destacarem na Literatura da época, desfrutam dos privilégios desse tipo de vida e, como insinua o texto, do leito da rainha. O sonho do eu-lírico, segundo o poema, é ter em seus braços (de poeta) a rainha Leonor, pois, com ela, vem o que há de melhor no "mundo" . 

 

VI- 'QUANDO NA TABERNA ESTAMOS"

Quando na taberna estamos,

falar da morte evitamos,

jogar, isto nos conforta,

o dado é que importa.

Quem paga o pato na taberna ?

Qual a lei que nos governa?  

Tais perguntas em tua cabeça

permita-me que esclareça.

 

Se não bebem, jogam dados,

ou cometem outros pecados.

Vários devem, ao jogar,

sua roupa empenhar:

ficarão bem trajados

ou com trapos camuflados,

ninguém aqui teme a morte,

todos, bebendo, tentam a sorte.

 

Brindam logo a quem paga

com o vinho que se traga,

duas vezes os prisioneiros,

três vezes nossos herdeiros,

quatro vezes os batizados,

cinco vezes nossos finados,

seis, todas as mães solteiras,

sete, os guardas das fronteiras.

 

Oito, os confrades meliantes,

nove, os monges caminhantes,

dez, os nossos navegantes,

onze vezes os discordantes,

doze vezes os flagelantes,

treze vezes os viandantes.

Por fim, ao Papa, e ao Rei

brindam nossos fora-da-lei.

 

Bebe a dona, bebe o senhor,

bebe o cabo e o monsenhor,

bebe o dono, bebe a dama,

bebe o servo, bebe a ama,

o apressado e o tardo,

bebe o branco, bebe o pardo,

o burguês com o vago

o camponês com o mago.

 

Bebe o pobre, bebe o doente,

o marginal, o indigente,

o moço e o veterano,         

bebe o abade com o decano,

bebe o irmão, bebe a irmã,

bebe o velho, bebe a anciã,

bebe o nobre, bebe o vil

bebem cem e bebem mil.

 

Com seis ducados não pagamos

todo vinho que tragamos

bebendo todos à porfia.

Mas ao beber na alegria,

falsos irmãos de nós judiam

sempre nos vilipendiam.

Quem nos inveja, seja maldito,

no livro dos justo não fique inscrito." (CB no. 196)  

     Segundo Maurice van Woensel, esta é "a maior de todas as canções de bebedores da Idade Média e uma obra de arte de ritmo e de melodia, bem evidenciados na frenética versão musical de Orff.".

 "Quando na taberna estamos" é um poema metalingüístico, pois nele a taberna é retratada como lugar ideal de elaboração e apresentação de canções goliárdicas, em troca de comida, bebida e estadia. Aliás, é na taberna que os goliardos se encontram e que o trinômio AMOR-VINHO-JOGO se concretizam: "se não bebem, jogam dados, /  ou cometem outros pecados". Podem perder - ficando com "trapos camuflados" - ou ganhar o jogo - ficando "bem trajados" , o que, curiosamente, vem contra o provérbio que diz que "o hábito não faz o monge", pois, no caso, é o traje que indica a classe a que pertence o indivíduo e seu desempenho como jogador:

 trapos=pobreza=falta de sorte no jogo  / 

bons trajes=riqueza=sorte no jogo.

      Na hora de beber, não há diferenças entre os tipos sociais que estão na taberna , pois a bebida iguala a todos (veja as estrofes 5 e 6): "a dona", "o senhor", "o cabo", o "monsenhor", "o nobre", "o vil"  BEBEM JUNTOS.

      Qualquer motivo, por isso, é suficiente para se cair na bebida; brinda-se a qualquer coisa, a qualquer pessoa: primeiro "a quem paga" a bebida, depois aos marginalizados da sociedade ( aos prisioneiros, aos finados, às mães solteiras, aos monges vagantes, aos fora-da-lei, etc)  e , ao contrário do que acontece em sociedade, "por fim, ao Papa e ao Rei". 

      Depois de tanta bebida( excesso concretizado pela igualmente excessivas repetições do verbo BEBER nas estrofes 5 e 6), tudo volta ao normal e os marginalizados - incluindo neles os goliardos - voltam a ser maltratados pelos seus "irmãos" (palavra que indica que o goliardo que fala no poema é um religioso, é um monge, um vagante) e o poema termina maldizendo tais injustiças e os falsos irmãos (irmãos só na bebida?).

          Quanto às palavras que compões o texto, observa-se a presença da gíria "pagar o pato"(=ser punido); "traga"é, ao mesmo tempo, o verbo tragar e o verbo trazer; a disposição e as rimas nas estrofes 3 e 4 ; a igualdade entre tipos sociais diferentes na hora da bebida está representada pela "aproximação de contrários" (antíteses), nas estrofes 5 e 6: "bebe o servo, bebe a ama"/ o apressado  e o tardo... bebe o nobre, bebe o vil"

      Encerrando os comentários a respeito dos textos aqui mostrados, o presente artigo também termina, sugerindo ao leitor mais exigente e curioso em relação ao assunto aqui tratado que procure conhecer  "Carmina Burana", a obra dos goliardos. E para aqueles que imaginam que a goliardia é coisa do passado, aqui vai um exemplo de poema semelhante aos que os goliardos faziam, um poema de conteúdo crítico camuflado pela linguagem poética com que é elaborado, pela melodia "sacra" e pelo "coro de missa" que o acompanham:

"Pai, afasta de mim esse cálice,

Pai, afasta de mim esse cálice,

Pai, afasta de mim esse cálice

De vinho tinto de sangue.

 

Como beber dessa bebida amarga

Tragar a dor, engolir a labuta

Mesmo calada a boca resta o peito

Silêncio na cidade não se escuta.

De que me serve ser filho da santa

Melhor seria ser filho da outra

Outra realidade menos morta

Tanta mentiram, tanta força bruta         

Como é difícil acordar calado

Se na calada da noite eu me dano

Quero lançar um grito desumano

Que é uma maneira de ser escutado.

Esse silêncio todo me atordoa

Atordoado eu permaneço atento

Na arquibancada prá a qualquer momento

Ver emergir o monstro da lagoa.

 

De muito gorda a porca já não anda

De muito usada a faca já não corta

Como é difícil, pai, abrir a porta

Essa palavra presa na garganta.

Esse pileque homérico no mundo

De que adianta ter boa vontade

Mesmo calado o peito resta a cuca

Dos bêbados do centro da cidade.

 

Talvez o mundo não seja pequeno

Nem seja a vida um fato consumado

Quero inventar meu próprio pecado

Quero morrer do meu próprio veneno

Quero perder de vez tua cabeça

Minha cabeça perder teu juízo

Quero cheirar fumaça de óleo diesel

Me embriagar até que alguém me esqueça!"     (Chico Buarque/Gilberto Gil)

 

 

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS:

(1) FRANCO Jr., Hilário . O Feudalismo.  9a. edição, São Paulo : Brasiliense, 1991 - pp.    26 e 27

(2) idem - op. cit. p. 58

(3) ibidem- op. cit. p.59

(4) conforme  ROLLAND, Jaques-Francis . Historama: a grande aventura do  homem . Buenos Aires : Editorial Codex, 1972 - p. 114

(5) BURNS, Edward M. História da Civilização Ocidental.  25a. edição, Porto Alegre : Editora Globo, 1983 - p. 380

(6) _____, idem op. cit. - p. 380

(7)  Spina, Sigismundo apud  WOENSEL, Maurice van . Carmina Burana :  Canções de Beuern.  São Paulo : Ars Poética,    1994- p. 10

(8) CORREIA, Natália . Cantares dos trovadores galego-portugueses . Lisboa : Estampa, 1980 - p. 25

(9) SARAIVA, Antônio José & LOPES, Oscar . História da Literatura Portuguesa.  8a. edição, Porto : Porto Editora, 1975- p. 57

(10) WOENSEL, Maurice van - op. cit. - p. 17.

 

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