"Quando
é a grana que impera
o
direito degenera,
ao
indigente é negado
o
direito comprovado;
para
o rico não falta juiz
a
vender-se por pratas vis;
para
o rico, o juiz bonzinho
sempre
dá algum jeitinho;
quando
é a grana que pleiteia,
a
sentença nunca é feia.
Quando
a grana é quem manda,
a
justiça enfraquece,
toda
causa que desanda
vitoriosa
aparece,
o
pobre perde seu direito
quando
a grana faz o pleito;
seu
processo já naufragou
se
ao juiz nada pagou;
a
justa causa se declina
só
por falta de propina."
O
leitor deve estar imaginando que os versos acima se referem ao contexto sócio-econômico-político
brasileiro da atualidade ( que parece
ser o mesmo desde que Cabral aqui chegou), por causa do conteúdo do texto, pela
presença das palavras GRANA ( ao
invés de dinheiro) - gíria utilizadíssima entre os falantes que vivem numa
sociedade capitalista, onde quem exerce o poder político e social é a classe
que detém o poder econômico - e JEITINHO, palavra símbolo do povo brasileiro,
pois brasileiro tem sido o adjetivo que acompanha,
ou melhor, que segue o substantivo "jeitinho" ( "JEITINHO
BRASILEIRO"), binômio que, infelizmente, tornou-se traço da cultura do país
e é conhecido dentro e fora dos seus limites geográficos.
O
leitor se enganou: esse texto é um poema do século XIII
e faz parte de um conjunto de poemas medievais - de um CANCIONEIRO - de
autoria dos GOLIARDOS e que por seis séculos ficou escondido, trancado a
"sete chaves" (como todas as obras consideradas subversivas e,
por isso, proibidas) na biblioteca da Abadia
de Benediktbeuern, na Baviera, Alemanha. Em 1803, quando o acervo artístico e
literário da Abadia foi transferido para a Biblioteca Estatal da Baviera (Bayerische
Staatsbibliothek, fundada em 1558 e considerada a maior e mais rica em
manuscritos medievais da Alemanha Ocidental) em Munique, nele foi encontrada uma
extensa coleção de poemas/canções profanas e em latim; seu manuscrito foi
publicado em 1847 e intitulado "Carmina Burana", ou seja, em latim,
"Canções de Beuern" por ter sido encontrado na Abadia de
BenediktBEUERN. Esse manuscrito continua na Biblioteca Estatal em Munique: é o
manuscrito no. 4660. A obra, porém, tornou-se mais conhecida a partir de 1936, quando o compositor alemão Carl
Orff (1895-1984) musicou 23 (vinte
e três) canções de "Carmina Burana" , que tem sido inserida em
corais, nas trilhas sonoras de filmes e programas de televisão, em
"shows", etc. O sucesso da cantata despertou o interesse pela letra,
ou seja, pelo texto da obra literária que Orff encontrou na Biblioteca em
Munique: qual seria sua história, quem seriam seus autores, por que foram
proibidas e escondidas, etc? Esse interesse, no entanto, tem se restringido a um
número muito pequeno de intelectuais, principalmente no Brasil.
Para se ter uma idéia, somente em julho do ano passado (1994) foi lançada
uma obra que traduz para o português moderno 9 canções de "Carmina
Burana" de autoria daquele que é considerado por Sigismundo Spina (que
apresenta a obra) o maior especialista no assunto em nosso país: Maurice van
Woensel. A obra, publicada pela Editora Ars Poética, tem título homônimo , é
bilíngüe (latim-português) e não se atém à mera tradução dos poemas: os
textos de apresentação e introdução, os comentários e notas explicativas
sobre cada poema, os anexos, despertam a curiosidade sobre o assunto no leitor.
Essa curiosidade despertada é que nos levou a pesquisar a respeito de "Carmina
Burana" e de seus autores: os goliardos ; pronta a pesquisa, surgiu o
desejo de divulgá-la a outras pessoas. Além desse desejo, o fato de muitos
(ainda) desconhecerem o assunto mesmo sendo estudiosos e/ou apreciadores
de Literatura, e, principalmente, a atualidade de "Carmina Burana", em
especial no que toca à corrupção nas esferas
de poder, levou-nos a escrever este artigo.
1.
A Igreja Medieval: algumas considerações
Na Idade Média, a religião oficial da Europa é o Cristianismo
e a instituição "porta-voz" de seus preceitos e
"canal" entre Deus e os homens é a Igreja Católica. Tais funções dão
ao CLERO plenos poderes sobre toda a sociedade: ela é, juntamente com a
aristocracia laica, a classe dominante na sociedade feudal.
O que justifica e o que sustenta tal domínio ? Principalmente te numa
ideologia calcada no princípio de que Deus é o centro da vida humana (TEOCENTRISMO),
é "a medida de todas as coisas" e, por isso, todos os homens devem
ter como objetivo primeiro de sua existência SERVIR e AGRADAR a Deus: essa
atitude de servidão ("feudalismo religioso" ) dá ao servo como
recompensa um lugar privilegiado
"no céu" após sua
morte:
"Firma-se aos poucos uma
mentalidade simbólica que via no mundo um grande enigma decifrável somente
pela fé. Um mundo que ganharia sentido apenas através de Deus. A razão
passava a ser vista como um instrumento diabólico, que mantinha o homem na ilusão
de uma falsa sabedoria que o afastava da verdade. Havia a possibilidade do homem
se aproximar de Deus, servindo-o . Firmava-se, assim, uma nova aliança, pela
qual o homem através de determinadas ações ganharia as recompensas
celestiais. Em função disso e do crescente clericalismo, foi se desenvolvendo
um ritualismo que levou a época a ser chamada de "civilização da
liturgia".
Com o Cristianismo, o homem viu-se diante de um Deus distante e onipotente e de um Demônio sempre presente e tentador. Colocado entre as forças do Bem e do Mal, no centro de um combate a que não poderia fugir, o homem jogava seu destino... Combater a presença do Demônio era uma necessidade para que o homem definisse o destino de sua Vida Eterna." (1) (grifo nosso)
Agradar
e servir a Deus, segundo a Igreja, significam, dentre outras coisas, ser
extremamente religioso, isento de pecado, desapegado aos bens materiais - que ao
serem doados , por exemplo, à Igreja convertem-se imediatamente em crédito, em
garantia de obtenção das "recompensas celestiais" há pouco citadas
- , obediente e temente (até rimam) a Deus, etc. O conceito de pecado, aliás,
parece estar sempre ligado aos conceitos de prazer, de progresso, de
criatividade, de beleza, de tudo, enfim, que traz satisfação ao homem e que,
coincidentemente, caracterizaram a cultura da Antigüidade: uma cultura antropocêntrica.
O medo de pecar e, portanto, de desagradar a Deus, torna o homem medieval
passivo, impotente e, por isso, dominado pelo que a Igreja determina como norma
de conduta pessoal e social: o feudalismo religioso, assim, endossa e reproduz
as relações vassalagem/servidão, essência do sistema feudal.
"O
controle da Igreja sobre os valores culturais e mentais era exercido através de
vários canais. O sistema de ensino, monopolizado pela Igreja até o século
XIII , permitia a reprodução do corpo de idéias
que ia sendo selecionado e formulado por ela. Assim, foi primeiro nos
mosteiros, depois nas universidades, que a herança cultural greco-romana foi
devidamente cortada, emendada, desenvolvida, enfim, cristianizada. Numa época
em que poucas pessoas tinham acesso a essa cultura escrita, as pinturas e
esculturas das igrejas e os sermões dominicais dos clérigos funcionavam como
meios de comunicação de massa da época, transmitindo naturalmente a visão
de mundo da Igreja.( grifo nosso).
A prática da confissão individual, cada vez mais adotada a partir do século VIII , permitia ao clero penetrar profundamente na consciência de seus paroquianos e assim orientar seu pensamento e comportamento" (2)
A Idade Média é um período de longas e constantes guerras: o mundo
terrestre é "palco da luta entre as forças do Bem e do Mal, hordas de
anjos e demônios". As forças do Mal concretizadas naqueles que não são
cristãos - como os muçulmanos, os vikings,
etc
- são combatidas com soldados e armas; aquelas que "não se
encarnaram", no entanto, exigem, segundo a Igreja, um tipo especial de
soldado: os clérigos, com suas armaduras simbólicas ( batinas) e suas armas
espirituais (sacramentos, preces, exorcismos) , guerreiros que
"comandam" a vitória dos homens sobre o Mal.
A
esse poder de determinar o pensamento e as ações de toda a sociedade,
acrescenta-se ao clero medieval um outro tipo: o PODER ECONÔMICO. A partir do
ano 321 , a Igreja passou a receber legados e a quantidade de seus bens cresceu
rapidamente,
tanto
que já no século V ela é a maior proprietária de terras depois do Estado; no
século X, terça parte das terras cultiváveis de toda Europa Católica era da
Igreja, sem contar outros tipos de riquezas. Poder gera poder e a Igreja é a
classe mais poderosa econômica-política e socialmente falando:
"A
clericalização da sociedade atingiu seu auge nos séculos X-XIII
. Pouca coisa escapava à Igreja, por isso é mais adequado caracterizar
a sociedade medieval como feudo-clerical ou feudoclericalismo" (3)
2.
A crise clerical e o surgimento dos goliardos:
Tanto poder sobre os homens parece ter levado o clero a se esquecer das
coisas de Deus; tantos bens materiais desviam a atenção dos religiosos daquela
que seria sua missão e os assuntos ligados ao espírito são relegados a
segundo plano ou, o que é pior, misturam-se aos mundanos. A crise clerical começa
a tomar corpo mais ou menos no século XII quando fica clara a contradição
entre a "instituição que não é deste mundo" - e por isso recebe respeito, obediência e bens - mas que age cada vez
mais nele, que prega a filosofia cristã, mas que está longe de praticá-la,
que impõe aos seus fiéis que "é mais fácil um animal de grande porte
passar pelo buraco de uma agulha do que um rico
entrar no reino dos céus", mas que enriquece a cada dia; "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus", mas que exerce o poder divino e político simultaneamente; "não matarás", mas que tem uma Santa Inquisição...
É preciso, no entanto, esclarecer
que dentro da própria Igreja Medieval existem dois cleros: o REGULAR
e o SECULAR.
O clero regular é formado pelos monges,
religiosos que vivem no interior dos mosteiros, que obedecem à rígidas normas
disciplinares, que prestam voto de pobreza e de humildade, que trabalham duro e
que expendem muitas horas em silenciosa meditação religiosa. São também os
monges quem escrevem a maior parte dos livros, copiam manuscritos antigos e mantêm
a maioria das escolas, bibliotecas e hospitais que existem na Idade Média.
O clero secular é aquele do qual está se
tratando até aqui: o formado por religiosos que desempenham suas atividades em
meio às coisas do mundo, ou seja, pelos
sacerdotes, bispos e arcebispos.
Com o tempo, desenvolve-se entre o clero regular e o secular uma intensa
rivalidade, tendo os monges por vezes organizado movimentos de reforma contra o
mundanismo do clero secular.
Não são só os monges, porém, que percebem que o "pecado"
está cada vez mais no cotidiano de grande número de membros do clero. Muitos
leigos, principalmente intelectuais que conhecem um conjunto de idéias que
divergem do pensamento ( da
"visão de mundo") propagado pela Igreja, enxergam claramente tantos
paradoxos entre o que ela prega e o que ela faz, questionam seus preceitos, etc.
Além disso, a guerra, a fome, a peste, a morte em tão grande escala na Idade Média
são considerados castigos divinos aos pecados humanos , como resultado do
afastamento dos homens em relação a Deus. A Igreja começa a ser considerada a
grande culpada pelas calamidades, pois, para muitas pessoas, seu envolvimento
excessivo nas questões materiais causa problemas no intercâmbio Deus-homens da
qual ela é mediadora. Ironicamente, " o feitiço está se voltando contra
o feiticeiro..."
É nesse exato momento que clérigos descontentes e, por isso,
marginalizados ( fugidos ou expulsos dos mosteiros), intelectuais e estudantes
começam a formar um interessante grupo, que resolve popularizar tudo o
que consideram irregular nas esferas de poder, delatando os crimes, as injustiças,
a corrupção, etc, escolhendo como meio de comunicação a Literatura e a Música.
Esse grupo é o dos GOLIARDOS.
3.
Os goliardos:
Século XII: renascem as cidades e o comércio
é uma atividade econômica de suma importância na Europa. Juntamente
com as especiarias, com a seda de Bizâncio, de Bagdá ou de Córdova, os
mercadores (muçulmanos) levam consigo manuscritos, através dos quais a cultura
greco-árabe penetra na Europa. Um trabalho extenso de tradução pôs os cristãos
em contato com as obras-primas dos filósofos antigos (Platão e Aristóteles),
dos muçulmanos (destaque para o muçulmano
Averroes, autor da mais clara exposição do aristotelismo dessa época)
e dos judeus (destaque para Maimônides, astrônomo e teólogo) (4).
Como foi citado no item anterior, até o século XIII o sistema de ensino
é monopolizado pela Igreja e a cultura antiga, cristianizada. Já no século
XII, porém, a assimilação de textos gregos e árabes pela cristandade
ocidental começa a ocorrer em alguns centros, especialmente franceses: Paris,
favorecida pelo prestígio crescente da monarquia dos Capetos, é o mais
brilhantes desses focos; mestres e discípulos aglomeram-se na antiga "Cité",
na Escola da Catedral de Notre Dame; alguns mestres ainda ensinam conforme os cânones
da Igreja; outros, no entanto, atraem numerosos estudantes quando lhes
apresentam um conjunto de idéias em que a razão triunfa sobre a fé: um desses
mestres, considerado o mais ilustre de seu tempo e o fundador do
"racionalismo medieval" é Pedro Abelardo (mais conhecido simplesmente
como Abelardo), sobre o qual o presente artigo ainda vai comentar. A Igreja
sempre teve suas "razões" (fazendo um trocadilho) por temer que suas
"ovelhas" tivessem acesso ao pensamento dos Antigos, pois há
nele um racionalismo que levanta suspeitas sobre o pensamento dogmático da
Igreja, e o que até então é indiscutível passa a ser polêmico, problemático.
Além disso, percebe-se que, aos poucos, o ser humano sente o desejo de produzir
saberes, de progredir, de cuidar dos problemas humanos tão descuidados numa
cultura teocêntrica como a medieval; o ser humano deseja ser novamente o
centro, a meta de sua própria vida (antropocentrismo). Em Chartres, dominam a
Aritmética, a Geometria, a Astronomia e a Música, que alimentam o espírito
curioso e pesquisador dos habitantes da cidade. Por tudo isso, muitas escolas e
universidades medievais são consideradas focos de heresias, paganismo e
mundanismo. A Igreja diz que “o
jovem procura a Teologia em Paris, o Direito em Bolonha e a Medicina em
Montpellier, mas em nenhum lugar uma vida que agrade a Deus. "(5)
Esse grupo de mestres e estudantes "hereges, pagãos e mundanos
" por freqüentarem tais "antros" e por serem simpatizantes de
uma ideologia diferente daquela inculcada pela classe dominante recebe a adesão
de clérigos há muito descontentes com os "paradoxos" do clero
secular. Tais mestres, estudantes e clérigos são chamados de GOLIARDOS.
A palavra goliardo vem do latim "goliardus": vagante.
Isso porque esse estranho grupo é itinerante, ou seja, aproveitam o
freqüente intercâmbio entre universidades como as de Paris, Oxford, Cambridge,
Colônia, Bolonha e Pádua, para mudarem de lugar e ouvirem novos professores
e/ou para também divulgarem suas idéias, seus conhecimentos, etc, propiciando
sempre o debate, a polêmica em torno daquilo que até então é considerado
verdade absoluta; o uso da língua latina em todos os centros culturais
facilita esse intercâmbio. Muitos desses "vagantes" tornam-se famosos
( Abelardo, por exemplo).
Com o tempo, porém, a anarquia e a boêmia passam também a caracterizar
tal grupo, de maneira que os goliardos tornam-se um grupo formado por mestres,
estudantes, clérigos fugitivos, mendigos, jogadores, ladrões, enfim, por todos
os tipos de marginalizados da sociedade, de criminosos comuns, dos quais estavam
cheias as estradas. Os goliardos participam de todo o tipo de arruaça, por isso
costumam referir-se a si mesmos como discípulos de Golias
(provavelmente o gigante derrotado por Davi,
do
latim "Golias"e do hebraico "Golyat", "inimigo de
Deus"), outra acepção do
nome goliardo. Segundo C.H.
Haskins, em sua obra "The Renaissance of the Twelfth Century", esse
Golias pode ser o diabo e
" a escolha de tal mestre é bastante apropriada, pois a maioria
dos
goliardos é considerada pela Igreja como dissolutos da mais baixa estofa, para
os quais nada era suficientemente sagrado para escapar ao ridículo"(6), tanto
que o "Concílio de Colônia", em 1300, proíbe aos
goliardos fazerem sermões nas igrejas.
A palavra goliardo tem ainda outra provável origem ; a do latim
"gula", pela comida e bebida consumida
em excesso pelos goliardos.
Esses gulosos, boêmios, marginalizados, vagantes e anárquicos
escolhem como veículo de sua mensagem revolucionária e aberta a todas
as formas de oposição ao feudalismo a obra
literária em versos, a POESIA.
4.
A poesia dos goliardos
Os goliardos são poetas itinerantes, mas cultos, letrados: conhecem a
obra de Virgílio, Catão, Horácio e principalmente a "Arte de Amar",
de Ovídio; são poetas que têm contato com o povo, com a população simples e
rústica do campo, mas que freqüentam universidades e palácios. Por isso,
elaboram obras que lembram a poesia dos jograis (poetas plebeus) ao mesmo tempo em que -
por ser elaborada em latim ,ou seja,
em linguagem culta, e pelo estilo (poesia litúrgica) - fazem contato com a
poesia aristocrática dos trovadores (poetas nobres). Comungam em suas obras,
assim, elementos da poesia popular e os da poesia culta, acompanhadas de uma
melodia que muito lembra os hinos e cantos sacros (como, por exemplo o canto
gregoriano, aliás tão em moda, tão apreciado atualmente), mas cuja
"letra" tem conteúdo profano, pagão, "herege" no sentido
em que veiculam o pensamento clássico, antropocêntrico; o fato de
terem acompanhamento musical também é
outro ponto de contato com as poesias trovadorescas e jogralescas: daí a
poesia dos goliardos ser chamada de CANÇÃO
e o conjunto delas, de CANCIONEIRO.
Quanto à temática dessa produção poética, Sigismundo Spina(7)
lembra que ela costuma se condensar no trinômio AMOR-VINHO-JOGO, pois,
para os goliardos, os prazeres da vida são os prazeres da bebida, do jogo e, em
especial, do AMOR. Esse trinômio é desenvolvido em POEMAS LÍRICOS: bucólicos,
amorosos, mas principalmente nos SATÍRICOS.
A vida errante do goliardo lhe dá a experiência da vida em contato com
a natureza; daí seus poemas celebrarem as belezas da estação florida, das
mudanças das estações, dos pássaros, das florestas, etc.
O amor - à moda de Ovídio - é o elemento principal de uma poesia erótica
em que são freqüentes conceitos e motivos que já fazem parte das cantigas dos
trovadores: os amores secretos, a submissão do homem em relação à amada -
sua "senhora" (a vassalagem amorosa), idealizada , divinizada e, por
isso, inatingível, etc, mas que salientam a volúpia
do amor físico e do vinho, exaltando a alegria das tavernas e dos bordéis.
Há, ainda, poemas que criticam com veemência os costumes, o sistema,
etc; qualquer que seja o tema, contudo, uma coisa é certa: o alvo predileto de
um poema goliardo é, sem dúvida, o clero secular:
"Os
"clericis vagantes"cantam a volúpia dos prazeres terrestres,
libertando-os do estigma do pecado, parodiando os evangelhos, as orações, os
ofícios, e criticando a venalidade, e imoralidade e a hipocrisia do clero. Um
florilégio da poesia erótica latina, de inspiração ovidiana, coloca-se sob o
signo da lasciva Afrodite."(8)
Os
poetas goliardos escrevem paródias do credo, paródias das missas e mesmo imitações
burlescas dos evangelhos; nas suas canções tabernárias, colocam em relevo os
desmandos da Igreja, a hipocrisia dos altos prelados eclesiásticos, os
paradoxos entre o que a Igreja prega e o que ela faz (como já vimos
anteriormente), etc, numa tentativa de reforma na disciplina religiosa,
prenunciando idéias que posteriormente (século XVI) fariam parte do
Luteranismo e do Calvinismo. Nas obras em que exaltam os prazeres do amor, de
uma boa mesa (com muita comida e bebida), do jogo, ou, nas invocações da
mocidade, da primavera e da natureza, é evidente a tendência contra o espírito
ascético da Igreja. Caso o leitor não
saiba, o " ASCETISMO é
a moral filosófica ou religiosa baseada no desprezo do corpo e das sensações
corporais, e que tende a assegurar, pelos sofrimentos físicos, o triunfo do espírito
sobre os instintos e as paixões" . O pensamento goliardo parece discordar
completamente disso:
"É
Padre, discreto entre os discretos,
Dá-me absolvição!
grata a morte que me
leva,
É doce extinguir-me,
Pois meu coração sofre
Da meiga doença que a
beleza traz;
Todas as mulheres que não
alcancei
Possuo em minha ilusão.
É tão difícil conseguir
Que a natureza se renda
E, junto às belas, corar e fingir
Que se é campeão da inocência!
Nós, os moços, não submeteremos jamais
Nossos desejos à lei severa,
Nem afastaremos do pensamento
Esses corpos macios e ternos.”
( "CONFISSÕES DE GOLIAS)
As
"virulentas críticas à Igreja e a contradição à moral e às leis canônicas,
às vezes, dão lugar a temas de preferência dos ouvintes : para sobreviverem,
os goliardos elaboram de improviso obras do e para o gosto dos ouvintes que se
dispõem a pagar sua comida, bebida e pousada. O mais curioso é que a maioria
dos ouvintes dos vagantes, por serem os únicos a entenderem latim, são também
clérigos...
5.
Goliardos famosos
A poesia dos goliardos são anônimas. Nada se sabe a respeito dos
autores com certeza. No entanto, o "magister" Hugo de Orléans
(1093-1160) parece realmente ser o autor de um grupo de poesias goliárdicas.
Também são atribuídas cerca de 30 canções jocosas ao bispo Gualterius de Châtillon
(1135- 1180).
É na Alemanha que a poesia dos vagantes alcança seu ponto mais alto:
por volta de 1160, vive em Colônia um goliardo que se "esconde" sob o
pseudônimo de "Archipoeta"( Arquipoeta) e que se acredita ser o
secretário e protegido do arcebispo Raimundo. Ao Arquipoeta são atribuídas
algumas das melhores canções goliárdicas, como por exemplo "Meu destino
será morrer na taverna".
Abelardo, já citado como o professor mais brilhante de seu tempo e o
introdutor do Racionalismo medieval, desde cedo se mostra apaixonado pela
Filosofia e um goliardo inveterado: estudante de Lógica em Loches e Paris,
entra logo em conflito com o tradicionalismo de seus mestres; como professor de
dialética - popular entre os alunos e por isso odiado pelos demais mestres - é
constantemente perseguido pelos seus métodos de ensino, pois segundo ele,
"só da dúvida surge o conhecimento; tudo deve ser questionado e analisado
à luz da razão"; ainda jovem, a ele são atribuídas canções amorosas
(aquelas à moda de Ovídio) que lhe valem tantas outras perseguições.
Enquanto professor em Notre-Dame, conhece a bela e culta Heloísa, sobrinha do cônego
Fulbert, mantendo com ela um relacionamento amoroso que resulta no casamento
realizado às escondidas ( na época, os professores também faziam votos de
castidade), no nascimento do filho do casal e na castração do "suposto
sedutor"; considerando tais acontecimentos como um provável castigo
divino, Abelardo e Heloísa se retiram para a vida monástica, mas durante o
resto de suas vidas, amam-se "platonicamente" e se correspondem através
de cartas, que hoje podem ser conhecidas através da obra cujo título em
português é "Cartas Completas de Abelardo e Heloísa", que,
segundo Antônio José Saraiva e Oscar Lopes, faz parte da
"epistolografia amorosa espiritualizada entre clérigos e freiras goliardos"(9).Além
dessa obra, a trágica e ao mesmo tempo bela história de amor de Abelardo e
Heloísa pode ser conhecida através da obra "Em Nome de Deus", de
Marion Meade,cuja versão cinematográfica
é encontrada também em vídeo. Sem abandonar a filosofia, Abelardo
passa a se dedicar à Teologia, publicando a "Teologia do Bem
Supremo", condenada pelo Concílio de Soissons. Como abade de Saint-Gildas,
combate a corrupção e é quase assassinado por monges corruptos. Para
encerrar, em 1136, suas doutrinas são condenadas pelo papa e pelo Concílio de
Sens; morre em 1142 sob tal condenação. É possível duvidar que Abelardo seja
um goliardo?
O último e maior dos poetas goliardos é francês e vive no século XV:
François Villon(1431-1464), cujo nome verdadeiro é François de Montcorbier;
adota o sobrenome Villon em homenagem ao seu benfeitor, o cônego Guillaume de
Villon. Estuda na Universidade de Paris e forma-se mestre; em 1455, porém, num
tumulto de rua, mata um padre e é banido de Paris; depois disso, cai na total
marginalidade, roubando, mendigando e acumulando crimes e penalidades, na mesma
proporção de sua crescente fama
de poeta extraordinário. Villon é autor de duas obras: "O Pequeno
Testamento" e "O Grande
Testamento", meio melancólicas, meio burlescas, em que lega aos seus
inimigos os bens que não possui. Muitos dos seus poemas não são de fácil
compreensão pela quantidade de gírias dos malfeitores parisienses que, não
raro, misturam-se ao francês arcaico.
O melhor das poesias dos goliardos, a maioria anônima ( como já
citado), está no manuscrito datado de 1230 e encontrado apenas em 1803 na
Biblioteca do Mosteiro de Benediktbeuern, sobre o qual já se teceu algumas
considerações no início deste artigo: "Carmina
Burana" ( "Canções de Beuern")
6.
"CARMINA BURANA"
Dentre os cancioneiros goliárdicos - em que se destacam os "Carminas"
de Cambridge, de Arundel, de Liège, do Vaticano e de Ripoll - "Carmina
Burana" é considerado o mais extenso, representativo e diversificado, pois
esse conjunto contém todas as características da poesia goliárdica, além de
trazer em si um retrato fiel, crítico
da época em que foram elaboradas, ou seja, exemplifica tudo o que foi exposto até
aqui.
A maior parte dessas canções é em latim,
mas há várias em alemão antigo, os
nas duas línguas; a mistura de duas línguas,
especialmente a do latim com uma língua viva, feita com o objetivo de criar uma
poesia de efeitos humorísticas ou satíricos, nos quais se manifesta, em geral,
o conflito de classes numa sociedade, faz com que, em Literatura, essa poesia
seja classificada como POESIA MACARRÔNICA.
"Carmina Burana" é considerado o mais antigo exemplo de poesia
macarrônica de que se tem notícia.
Sobre o manuscrito do cancioneiro, informa Maurice Van Woensel :
"O
manuscrito de "Carmina Burana" consiste em 112 folhas de pergaminho
fino, de 17 por 25 cm, que foram copiadas por volta de 1230 na atual Bavária; a
encadernação foi confeccionada muito tempo depois. Trata-se de uma compilação
de canções, provavelmente por três copistas diferentes, e ilustrada com oito
miniaturas e com vinhetas. Certas canções vêm com uma anotação musical
rudimentar. Estudiosos conseguiram reconstituir o que foram as melodias
originais delas..." (10)
A seguir, alguns exemplos dessas canções , que foram
"ressuscitadas", divulgadas e popularizadas quando o
alemão Carl Orff compôs a
cantata cênica com o mesmo nome do
manuscrito que têm encantado tantos leitores/ouvintes, principalmente pela sua
"atualidade". Os poemas
(canções) serão transcritos em português moderno, seguindo a tradução
que Maurice von Woensel apresentou em sua magnífica obra. No final de
cada texto, está colocado o número da canção dentro do cancioneiro ( CB nº
..., onde
CB= Carmina Burana ).
I-
"Ó FORTUNA"
Ó
Fortuna,
tal
a lua,
uma
forma variável!
Sempre
enchendo
ou
encolhendo:
ó
que vida execrável!
Pouco
duras,
quando
curas
de
nossa mente as mazelas
a
pobreza,
a
riqueza, tu derretes ou congelas.
Bruta
sorte,
és
de morte:
tua
roda é volúvel,
benfazeja,
malfazeja,
toda
sorte é dissolúvel.
Disfarçada
de
boa fada,
minha
ruína sempre queres;
simulando
estar
brincando,
minhas
costas nuas feres.
Gozar
saúde,
mostrar
virtude:
isto
escapa minha sina;
opulento
ou
pulguento
o
azar me arruína.
Chegou
a hora,
convém
agora,
o
alaúde dedilhar;
a
pouca sorte
do
homem forte
devemos
todos lamentar." (CB no. 17)
Sem dúvida, "ó Fortuna" é a carmina burana mais conhecida, a mais popular, principalmente depois que se tornou uma cantata de Orff: o vocativo inicial indica que se trata de um lamento ante a pouca estabilidade de Fortuna, a deusa da sorte ( "Chegou a hora,/convém agora,/o alaúde dedilhar;/ a pouca sorte/do homem forte/ devemos todos lamentar."). A personificação feminina da fortuna, ou seja, da sorte humana não é gratuita: tal como uma mulher, ela é volúvel, instável, temperamental, que contém em si elementos ora positivos, ora negativos. Recorre-se, por isso, à antiga alegoria da roda da Fortuna para simbolizar o perpétuo "sobe e desce" da sorte humana.
Um dos elementos mais interessantes do poema é a maneira como o seu
autor concretizou a RODA DA FORTUNA (seu
caráter volúvel, sua instabilidade) : através de antíteses
que, colocadas em posições verticais,
"giram"("rodam") no texto, já que em alguns momentos, o
elemento de cima representa algo bom/ o de baixo, ruim, e em outros, o elemento
de cima representa algo ruim/o de baixo, bom. Por exemplo:
enchendo pobreza
vida
x
x
x
encolhendo
riqueza
morte
derretes x congelas
benfazeja
sorte
opulento
x
x
x
malfazeja azar
pulguento
Tal concretização da roda da fortuna demonstra o indiscutível valor
literário (poético) dos poemas goliardos, além da preocupação com o conteúdo
crítico.
II-
"UMA JOVEM PASTORA"
Uma
jovem pastora,
logo
ao sol nascer,
levava
seu rebanho
e
lã para tecer.
Seu
rebanho inclui
carneiro
e jumentinha
cabrito
e cabrita
bezerro
e bezerrinha.
Ela
viu na relva,
sentado
um estudante:
"Senhor,
que faz aqui ?
Brinquemos
um instante!" (CB no. 90)
"Uma jovem pastora", cujo nome já sugere se tratar de uma
"pastorela" é um poema goliardo que conta um
episódio de uma pastora que logo cedo leva o rebanho
para pastar. Chegando no pasto ( na relva), a pastora encontra um
estudante (que pode ser um goliardo) . Como seu rebanho é formado por
"jovens casais "(
cabrito-cabrita,bezerro-bezerra), o poema indica que a pastora
e o estudante formam outro "casal", pois ela o convida a
"brincar"( sentido malicioso de "fazer amor"), como fazem os
outros "casais" que ali se encontram. Fazer amor aparece como algo tão
natural quanto o sol que nasce, a relva, a lã, o rebanho... E esta pastorela
aparentemente despretensiosa toca
num assunto muito comum entre os goliardos : a invocação
da mocidade, da primavera e da natureza contra o
espírito ascético da Igreja.
III-
"AI DE MIM, QUE MEDO"
Ai
de mim, que medo,
furaram
meu segredo:
amava
loucamente.
Revela
o ocorrido
meu
ventre entumescido;
o
parto é iminente.
Mamãe
me fustiga,
papai
me castiga,
só
fazem me xingar.
Fico
em casa trancada,
não
piso na calçada,
não
posso mais brincar.
Se
eu na rua andar,
todos
vão me olhar:
"Um
monstro a passar!"
Vêem
com mesquinhez
minha
gravidez
e
passam sem falar.
Cotovelos
se afrontam,
dedos
sujos me apontam
como
malfeitora.
Olhares
me incriminam,
à
fogueira me destinam,
a
grande pecadora.
É
o fim da picada:
ser
a moça mais falada
desta
freguesia!
Dores
sem fim padeço,
aflita,
desfaleço,
choro
de agonia.
E
tudo agravou-se,
meu
noivo exilou-se,
para
longe daqui.
Ante
a paterna vingança,
exilou-se
na França
tão
distante de mim.
Ele
estando ausente
receio
que não agüente
esta
dor sem fim. " (CB no. 126)
"Ai de mim, que medo" , tal como numa primitiva "cantiga
de amigo", é um poema goliardo em que o eu-lírico é feminino e que, e
embora de autoria de um homem, expressa o descontentamento de uma mulher: uma
jovem quase menina ("não posso mais brincar") encontra- se com medo
por terem descoberto (ou, na gíria, "furado") seu segredo: uma
gravidez conseqüência do ato de amor. A gravidez e outras conseqüências
desse ato de amor são todas da mulher; embora tenha sido feita pelo casal, a
criança é de responsabilidade exclusiva da mãe desde o ventre (é no corpo da
mãe que ela habita desde a sua concepção); o amante a abandonou e é
ela quem é penalizada pelo "pecado" cometido por ambos: no próprio
corpo, pois ela é castigada pela barriga saliente ( "ventre
entumescido") que a assemelha a "um
monstro"; em casa, pelos pais; fora de casa, de quase onde não sai,
pois todos a olham e dela falam com "mesquinhez
e incriminação" ( conforme as estrofes de 4a. à 10a.), pois seu
pecado seria digno da fogueira, o que faz referência à Inquisição. Em suma,
essa gravidez lhe traz dores no corpo e na alma e ,em seu lamento expresso no
poema, essa mulher-menina mostra a covardia do amante que a abandonou (conforme
as três últimas estrofes) e a hipocrisia da sociedade ( o que ela acha "o
fim da picada"= o mais dolorido) que condena só a ela por ter
engravidado ("crescido e se multiplicado") fora do casamento.
IV-"
SE UM RAPAZ E UMA DONZELA"
Se
um rapaz e uma donzela,
ficassem
juntos na mesma cela...
R.
Ó casal abençoado!
O amor tempera,
anima o noivado;
o tédio se oblitera.
Brincam
juntos num só gesto
de
bocas, pernas e o resto!
R.
Ó casal abençoado... (CB no. 183)
"Se um rapaz e uma donzela" parece endossar o relacionamento
sexual ("brincam
juntos num só gesto/ de bocas, pernas e o resto") entre os jovens antes do casamento ("o amor tempera / anima o noivado") . A ousadia maior, no
entanto, está na sugestão de que tais jovens são religiosos ("cela"=
quarto de mosteiro) e na caracterização do casal como "abençoado",
o que, na verdade, eles jamais seriam (só pode ser uma ironia, portanto: outra
crítica ao ascetismo)
V-
"AH, SE EU PUDESSE COMPRAR"
Ah,
se eu pudesse comprar
o
mundo, do Reno até o mar.
Tudo
isto me pode faltar:
basta
a rainha da Inglaterra
em
meus braços se deitar." (CB no. 145)
Esta outra sátira goliárdica tem como objeto a rainha da Inglaterra, Leonor de Aquitânia,protetora das Letras e das Artes, mãe do famoso rei Ricardo Coração de Leão. Os poetas (trovadores) "protegidos"pela rainha Leonor têm acesso à vida palaciana e, além de divulgarem suas obras e se destacarem na Literatura da época, desfrutam dos privilégios desse tipo de vida e, como insinua o texto, do leito da rainha. O sonho do eu-lírico, segundo o poema, é ter em seus braços (de poeta) a rainha Leonor, pois, com ela, vem o que há de melhor no "mundo" .
VI-
'QUANDO NA TABERNA ESTAMOS"
Quando
na taberna estamos,
falar
da morte evitamos,
jogar,
isto nos conforta,
o
dado é que importa.
Quem
paga o pato na taberna ?
Qual
a lei que nos governa?
Tais
perguntas em tua cabeça
permita-me
que esclareça.
Se
não bebem, jogam dados,
ou
cometem outros pecados.
Vários
devem, ao jogar,
sua
roupa empenhar:
ficarão
bem trajados
ou
com trapos camuflados,
ninguém
aqui teme a morte,
todos,
bebendo, tentam a sorte.
Brindam
logo a quem paga
com
o vinho que se traga,
duas
vezes os prisioneiros,
três
vezes nossos herdeiros,
quatro
vezes os batizados,
cinco
vezes nossos finados,
seis,
todas as mães solteiras,
sete,
os guardas das fronteiras.
Oito,
os confrades meliantes,
nove,
os monges caminhantes,
dez,
os nossos navegantes,
onze
vezes os discordantes,
doze
vezes os flagelantes,
treze
vezes os viandantes.
Por
fim, ao Papa, e ao Rei
brindam
nossos fora-da-lei.
Bebe
a dona, bebe o senhor,
bebe
o cabo e o monsenhor,
bebe
o dono, bebe a dama,
bebe
o servo, bebe a ama,
o
apressado e o tardo,
bebe
o branco, bebe o pardo,
o
burguês com o vago
o
camponês com o mago.
Bebe
o pobre, bebe o doente,
o
marginal, o indigente,
o
moço e o veterano,
bebe
o abade com o decano,
bebe
o irmão, bebe a irmã,
bebe
o velho, bebe a anciã,
bebe
o nobre, bebe o vil
bebem
cem e bebem mil.
Com
seis ducados não pagamos
todo
vinho que tragamos
bebendo
todos à porfia.
Mas
ao beber na alegria,
falsos
irmãos de nós judiam
sempre
nos vilipendiam.
Quem
nos inveja, seja maldito,
no
livro dos justo não fique inscrito." (CB no. 196)
Segundo Maurice van Woensel, esta é "a
maior de todas as canções de bebedores da Idade Média e uma obra de arte de
ritmo e de melodia, bem evidenciados na frenética versão musical de Orff.".
"Quando
na taberna estamos" é um poema metalingüístico, pois nele a taberna é
retratada como lugar ideal de elaboração e apresentação de canções goliárdicas,
em troca de comida, bebida e estadia. Aliás, é na taberna que os goliardos se
encontram e que o trinômio AMOR-VINHO-JOGO se concretizam: "se não bebem, jogam dados, /
ou cometem outros pecados". Podem perder - ficando com "trapos
camuflados" - ou ganhar o jogo - ficando "bem
trajados" , o que, curiosamente, vem contra o provérbio que diz que
"o hábito não faz o monge", pois, no caso, é o traje que indica a
classe a que pertence o indivíduo e seu desempenho como jogador:
trapos=pobreza=falta
de sorte no jogo /
bons
trajes=riqueza=sorte no jogo.
Na hora de beber, não há diferenças entre os tipos sociais que estão
na taberna , pois a bebida iguala a todos (veja as estrofes 5 e 6): "a
dona", "o senhor", "o cabo", o "monsenhor",
"o nobre", "o vil" BEBEM
JUNTOS.
Qualquer motivo, por isso, é suficiente para se cair na bebida;
brinda-se a qualquer coisa, a qualquer pessoa: primeiro "a
quem paga" a bebida, depois aos marginalizados da sociedade ( aos
prisioneiros, aos finados, às mães solteiras, aos monges vagantes, aos
fora-da-lei, etc) e , ao contrário
do que acontece em sociedade, "por
fim, ao Papa e ao Rei".
Depois de tanta bebida( excesso concretizado pela igualmente excessivas
repetições do verbo BEBER nas estrofes 5 e 6), tudo volta ao normal e os
marginalizados - incluindo neles os goliardos - voltam a ser maltratados pelos
seus "irmãos" (palavra que
indica que o goliardo que fala no poema é um religioso, é um monge, um
vagante) e o poema termina maldizendo tais injustiças e os falsos irmãos (irmãos
só na bebida?).
Quanto às palavras que compões o texto, observa-se a presença da gíria
"pagar o pato"(=ser punido); "traga"é, ao mesmo tempo, o
verbo tragar e o verbo trazer; a disposição e as rimas nas estrofes 3 e 4 ; a
igualdade entre tipos sociais diferentes na hora da bebida está representada
pela "aproximação de contrários" (antíteses), nas estrofes 5 e 6:
"bebe o servo, bebe a ama"/ o apressado e
o tardo... bebe o nobre, bebe o vil"
Encerrando os comentários a respeito dos textos aqui mostrados, o
presente artigo também termina, sugerindo ao leitor mais exigente e curioso em
relação ao assunto aqui tratado que procure conhecer
"Carmina Burana", a obra dos goliardos. E para aqueles que
imaginam que a goliardia é coisa do passado, aqui vai um exemplo de poema
semelhante aos que os goliardos faziam, um poema de conteúdo crítico camuflado
pela linguagem poética com que é elaborado, pela melodia "sacra" e
pelo "coro de missa" que o acompanham:
"Pai,
afasta de mim esse cálice,
Pai,
afasta de mim esse cálice,
Pai,
afasta de mim esse cálice
De
vinho tinto de sangue.
Como
beber dessa bebida amarga
Tragar
a dor, engolir a labuta
Mesmo
calada a boca resta o peito
Silêncio
na cidade não se escuta.
De
que me serve ser filho da santa
Melhor
seria ser filho da outra
Outra
realidade menos morta
Tanta
mentiram, tanta força bruta
Como
é difícil acordar calado
Se
na calada da noite eu me dano
Quero
lançar um grito desumano
Que
é uma maneira de ser escutado.
Esse
silêncio todo me atordoa
Atordoado
eu permaneço atento
Na
arquibancada prá a qualquer momento
Ver
emergir o monstro da lagoa.
De
muito gorda a porca já não anda
De
muito usada a faca já não corta
Como
é difícil, pai, abrir a porta
Essa
palavra presa na garganta.
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo
calado o peito resta a cuca
Dos
bêbados do centro da cidade.
Talvez
o mundo não seja pequeno
Nem
seja a vida um fato consumado
Quero
inventar meu próprio pecado
Quero
morrer do meu próprio veneno
Quero
perder de vez tua cabeça
Minha
cabeça perder teu juízo
Quero
cheirar fumaça de óleo diesel
Me
embriagar até que alguém me esqueça!"
(Chico Buarque/Gilberto Gil)
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS:
(1) FRANCO Jr., Hilário . O Feudalismo. 9a.
edição, São Paulo : Brasiliense, 1991 - pp.
26 e 27
(2) idem - op. cit. p. 58
(3) ibidem- op. cit. p.59
(4) conforme ROLLAND,
Jaques-Francis . Historama: a grande aventura do
homem . Buenos Aires : Editorial Codex,
1972 - p. 114
(5) BURNS, Edward M. História da Civilização
Ocidental. 25a.
edição, Porto Alegre : Editora Globo, 1983 - p. 380
(6) _____, idem op. cit. - p. 380
(7) Spina,
Sigismundo apud WOENSEL, Maurice
van . Carmina
Burana : Canções de Beuern.
São Paulo : Ars Poética,
1994- p. 10
(8) CORREIA, Natália . Cantares dos trovadores
galego-portugueses . Lisboa : Estampa, 1980 - p. 25
(9) SARAIVA, Antônio José & LOPES, Oscar . História
da Literatura Portuguesa. 8a. edição,
Porto : Porto Editora, 1975- p. 57
(10) WOENSEL, Maurice van - op. cit. - p. 17.